Estrangeiros
adquirem empresas nacionais e produção industrial cai
Na segunda-feira não escapou nem
churrascaria
A
produção industrial caiu -0,2% em abril, comparada a março, e -2,9% em relação
a de abril de 2011: a oitava queda seguida nessa última comparação.
O
resultado foi divulgado pelo IBGE no dia 31.
No
ano, a queda na produção física da indústria está em -2,8%, principalmente na
fabricação de: veículos (-17,9%); equipamentos de comunicações (-14%);
vestuário (-13,5%); máquinas, aparelhos e materiais elétricos (-9,3%); têxteis
(-7,6%); equipamentos de informática (-7,4%); borracha e plástico (-5,3%);
medicamentos (-5,1%); produtos de metal (-4,7%); metalurgia básica (-4%); e
calçados (-3,4%).
Já
levantamos aqui os problemas advindos da devastação da cadeia produtiva,
imposta por aumentos de juros irracionais e tresloucada taxa de câmbio que, com
a restrição de crédito e a contenção dos aumentos salariais, constituiu a
política econômica do ano passado – que a presidente Dilma, no momento,
esforça-se para corrigir.
O
problema é que só existe crescimento da indústria se existir indústria –
transformada em comércio de importados, pela desnacionalização, é difícil que a
indústria cresça, e, por consequência, a economia, além, talvez, do chamado voo
de galinha, às vezes nem isso.
Portanto,
o crescimento sólido da economia implica na existência de uma indústria
nacional – em outras palavras, na existência de cadeias produtivas internas.
De que adianta ter um magote de montadoras multinacionais com as suas cadeias
produtivas localizadas no exterior? Como setor secundário da economia, é
possível conviver com elas. Mas como setor principal significa,
necessariamente, descambar na estagnação – e na crise, porque não há melhor
forma de importar crises para dentro do país que a de submeter a economia à
dinâmica de economias em crise.
Há
algum tempo, o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e
Equipamentos (ABIMAQ), Luiz Aubert Neto, comentou uma exposição industrial do
seu setor:
“...
causou grande preocupação não só o crescimento exponencial do número de
produtos estrangeiros (...), mas também a grande quantidade de componentes
importados embarcados nas máquinas e equipamentos (…) o acelerado processo de
desnacionalização (...). E quando falamos em desnacionalização, reprimarização
e desindustrialização não se trata de pessimismo ou 'choro de empresário'. (…)
o empresário brasileiro não deixa ou deixará de ganhar dinheiro por conta da
desnacionalização, pois continuará a comercializar os produtos importados com
margens até melhores do que se estivesse fabricando, porém, deixará de gerar
empregos em toda a cadeia produtiva, que exigem mão de obra qualificada e que,
portanto, pagam melhores salários. E quem perde com isso? A resposta é simples:
o Brasil, a sociedade brasileira como um todo. Quando defendemos a indústria
nacional de transformação não se trata de defender interesses de um setor em
específico (repito: é possível ter margens bem melhores simplesmente com a
importação), mas sim da defesa da cadeia produtiva (que passa pela
matéria-prima, componentes, usinagem, engenharia, montagem, etc..), de maior
geração de renda, de desenvolvimento tecnológico e crescimento sustentado da
nação. (…). O modelo [baseado em commodities] pode até funcionar no
curto prazo, mas a médio e longo prazo não se sustenta e o resultado,
infelizmente, é a construção de um país que não gera renda e, consequentemente,
pobre”.
Notemos
que, se os empresários nacionais foram obrigados a importar componentes para
sua produção, no caso das filiais de multinacionais isso não foi uma imposição
do câmbio. Pelo contrário, o câmbio deformado é que foi uma imposição delas,
para facilitar suas importações de componentes, pois esta faz parte de sua
própria natureza de filiais de monopólios estrangeiros.
A
febril feira de empresas da segunda-feira, quando não escapou nem a
churrascaria Fogo de Chão (“o jeito gaúcho de fazer churrasco”), comprada por
um fundo especulativo de Boston, EUA, deveria servir pelo menos para alertar
que o Brasil não pode conviver com essa baderna. Certamente, foi uma
demonstração concentrada do que vem ocorrendo no país, ainda que motivada pela
entrada em vigor da nova lei de defesa da concorrência, que determina a análise
prévia de grandes “fusões e aquisições” pelo Conselho Administrativo de Defesa
Econômica (CADE), ao invés de depois do negócio. É verdade que isso terá pouco
efeito antimonopolista enquanto o CADE for composto, como é há muito, por
almofadinhas submissos a qualquer monopólio estrangeiro.
Porém,
em poucas horas, além da desnacionalização do churrasco gaúcho da Fogo de Chão,
a americana Armco comprou a divisão de galvanização da nacional Mangels; a
também americana Fedex comprou a Cometa; a Olam, com sede em Cingapura, comprou
a Usina Açucareira Passos; a Cosan/Shell comprou a Comgás - e vendeu suas
marcas de açúcar (a Shell quer a Cosan produzindo etanol); e até a chinesa
State Grid, muito mal assessorada pelo Bank of America/Merrill Lynch, pegou um
tasco: comprou sete linhas de transmissão elétrica de uma falida empresa
espanhola.
Em
suma, leitores, uma hora da xepa – só que a xepa eram as nossas empresas.
Evidentemente, esses negócios estavam engatilhados há algum tempo. Mas a
concentração deles na segunda-feira tem um efeito didático: é isso o que está
acontecendo na economia brasileira.
Há
notícias de que a presidente Dilma estaria preocupada com o baixo nível de
investimento e, inclusive, analisando um corte no superávit primário (o desvio
de verbas para os juros) para aumentar o investimento público.
Seria
muito bom – e sejamos claros: a política do sr. Mantega de desviar um “belo
primário” das verbas públicas e cortar gastos de custeio, supostamente para
aumentar os investimentos, é uma completa estupidez. Evidentemente, os gastos
de custeio também são um estímulo ao investimento – pela simples razão de que custeio
é consumo.
Mas,
sem dúvida, nada disso era para aumentar os investimentos, que, obviamente,
caíram: além da desnacionalização, o outro freio ao investimento e ao
crescimento é a drenagem de recursos de toda a economia para os bancos. Como
diz o presidente da ABIMAQ, “... os juros pagos pelo governo (…) somados aos
juros pagos pela sociedade e empresas (financiamentos, cartão de crédito,
capital de giro, cheque especial, etc.) superam os 580 bilhões de reais por
ano, uma transferência brutal de renda para um único setor da economia”.
CARLOS
LOPES